O Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado em 11 de fevereiro, chama atenção para desigualdades históricas que ainda moldam o acesso, a permanência e a ascensão das mulheres na produção científica. Poucos lugares deixam essas desigualdades tão evidentes quanto a Antártica, um dos principais territórios de pesquisa sobre mudanças climáticas do planeta.

Durante décadas, o continente antártico foi tratado como um espaço exclusivamente masculino. Até 1969, alguns países mantinham regras formais que proibiam mulheres de participarem de expedições científicas. As justificativas iam desde a suposta incapacidade de suportar o frio extremo ou carregar equipamentos pesados até argumentos abertamente sexistas, como a ideia de que mulheres seriam uma distração para os homens ou não conseguiriam viver sem consumo, conforto ou vaidade. Nenhuma dessas alegações tinha base científica.

A Antártica foi construída simbolicamente como um território de conquista heroica masculina. Um espaço associado à força, isolamento e bravura, onde o cientista era imaginado como um explorador solitário, sem vínculos familiares. A ciência polar se desenvolveu dentro desse imaginário, que nunca foi neutro em termos de gênero.

Hoje, mulheres estão presentes na Antártica em diferentes funções. São pesquisadoras, técnicas, médicas, líderes de expedição e chefes de estação. Elas coordenam projetos, coletam dados em temperaturas abaixo de zero e passam semanas ou meses em ambientes isolados do resto do mundo. Ainda assim, os desafios permanecem, especialmente quando se cruzam gênero, maternidade e acesso a oportunidades.

O ambiente antártico impõe dificuldades específicas às mulheres. O frio extremo exige preparo físico e equipamentos adequados, mas muitos desses equipamentos ainda são projetados para corpos masculinos. Luvas grandes demais, macacões que não vedam corretamente e botas inadequadas não são apenas desconfortáveis, mas representam riscos reais à segurança em campo.

Além das dificuldades físicas, há desafios sociais. A convivência em estações científicas e navios é intensa e sem possibilidade de afastamento. Relatos de assédio sexual, comentários inadequados, piadas e questionamentos constantes sobre competência ainda fazem parte da experiência de muitas pesquisadoras. Em um ambiente isolado, denunciar essas situações nem sempre é simples.

A maternidade é outro fator que pesa de forma desigual. A ciência polar exige disponibilidade total para viagens longas e convocações de última hora, o que entra em conflito com a realidade de muitas mulheres, que seguem sendo as principais responsáveis pelo cuidado com filhos e família. A pergunta “quem fica com a criança?” ainda recai quase exclusivamente sobre elas. Para mulheres com filhos, participar de expedições antárticas se torna muito mais difícil sem uma rede de apoio sólida.

Apesar disso, muitas seguem indo para a Antártica, deixando filhos sob os cuidados de maridos, avós ou familiares próximos. Essa decisão, no entanto, costuma vir acompanhada de culpa e julgamento social, algo raramente imposto a homens cientistas em situação semelhante.

A gravidez impõe outro limite. Por ser um dos lugares mais isolados do planeta, a Antártica conta apenas com atendimento médico básico, voltado para emergências e pequenos procedimentos. Não há hospitais de grande porte, UTI especializada ou estrutura para partos e complicações obstétricas. Por segurança, mulheres grávidas não participam de expedições antárticas, o que muitas vezes as exclui de trabalhos de campo que acontecem apenas uma vez ao ano e são determinantes para a carreira científica.

O cinema e a cultura popular ainda reforçam a imagem do cientista polar como um homem solitário, heroico, sem vínculos familiares. Esse imaginário afasta meninas da ciência e reforça a ideia de que a pesquisa antártica não combina com o feminino. Na prática, o que não combina é uma ciência que ignora as desigualdades que ela mesma produz.

O acesso a recursos também segue desigual. Mulheres, especialmente em países do Sul Global, enfrentam mais dificuldades para captar financiamento, liderar grandes projetos e obter patrocínios. Expedições antárticas são caras e, quando os recursos são limitados, tendem a beneficiar quem já ocupa posições centrais no sistema científico, historicamente dominadas por homens.

Ao destacar a realidade das mulheres na Antártica, o 11 de fevereiro deixa claro que a data não é comemorativa. Ela existe como um marco de cobrança. A presença feminina na ciência não é exceção nem concessão, mas um direito. Em um momento em que o planeta enfrenta uma crise climática sem precedentes, excluir mulheres da produção de conhecimento científico significa empobrecer diagnósticos e limitar soluções.

A Antártica, além de termômetro das mudanças climáticas, segue sendo um espelho das desigualdades que a ciência ainda precisa enfrentar.

Contato para imprensa:
Nome: Francyne Elias-Piera
E-mail: contato@gelonabagagem.com.br
Instagram: @gelonabagagem
YouTube: Gelo na Bagagem
Site: www.gelonabagagem.com.br

Dra. Fran é fundadora e Presidente do Instituto Gelo na Bagagem, influenciadora digital, especialista em ecologia polar e ESG ambiental. Atua na formação de professores, criação de conteúdos educativos e palestras sobre Antártica, mudanças climáticas e oceanos.

Share.
Exit mobile version